Sábado, Março 17, 2012

da tua pele...



" gosto de ti, nua.
a desafiar-me os sentires
a fazer crescer o desejo em mim de ti nua nesta forma serena e distante
de querer
de gostar
de estar e sentir."

Domingo, Fevereiro 05, 2012

III


III

Já não te amo.
Sinto só a falta que me fazes todos os dias em que escrevo só, aqui neste pedaço do mundo tão estranho.
A maioria das vezes caminho por esta cidade que eu quis nossa, sozinho.
E sou um estranho de visita tão breve como breve é o desejo ou o arfar do peito.
Caminho a bordejar o Douro. Sempre o Douro. O nosso rio, e já não reconheço os lugares, as pedras da calçada, as pedras do molhe na Cantareira. A Foz. Nada! Já não me reconheço na névoa que me embacia o olhar.
Paro a descansar. A reunir as emoções em forma de palavras frias. A registar o momento tão breve de nós que nunca fomos. Preciso de te registar em palavras. A forma desumana e possível. O amor-perfeito no passado e no futuro mais que perfeito, imperfeito na essência por não ser realizável.
Caminho, os olhos desertos não vêem a luz do sol a espraiar-se nas águas do Douro, o eléctrico que passa amarelo, velho, a reluzir nos trilhos em aço coçados. O guarda-freio antigo de chapéu e fato azul-escuro, afável, e calmo, com todo o tempo que dura a viagem breve demais para que se possa sonhar o tempo.
Já não te amo. Já não quero sonhar que te amo. Já não quero imaginar que te amo. Já não!
O eléctrico tão antigo e tão terno a tilintar em cada paragem. Os trilhos a abraçarem o Douro de mãos dadas. Olho quando passa, e fica-me cá dentro a pintura do eléctrico amarelo e os rostos voltados para dentro de si, fechados. Eu olho, mas não vejo no coração das pessoas, e fico aflito se serei humano, ou um autómato inventado por mente alucinada aqui, nesta cidade tua que eu queria nossa e não consigo.
Caminho
A vida é um jogo.


João Marinheiro Textos Janeiro 2008

Fotografia de Barcoantigo em 2010

Quinta-feira, Dezembro 29, 2011


..."Às vezes escrevo-te palavras que sinto intensas. Que saem de dentro a esvaziar-me todo, a alma ao avesso de mim, a alma ao comprido como uma queda na rua. Às vezes uma autêntica maré vaza, escoado. Maré viva de amplitude máxima. Como uma praia que já não é a nossa praia.

Ficam as pedras frias desnudas, a descoberto na praia da memória, a tal praia secreta no cabo do mundo que já não é.

Como escrever-te uma carta a falar de saudades sem sentir saudade tua..."

Fotografia de Barcoantigo em 2009

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

Dizias-me...



Dizias-me á dias em jeito de a querer meter conversa; “escreve qualquer coisa aqui”… e eu depois de ler estou em branco, vazio de palavras ou dizeres ou sentires. Estou só e aqui, mas é como se não estivesse. É o corpo que cansado ancorou aqui nesta espécie de fundeadouro de emoções. Só o corpo porque a alma essa anda vogando no vento ao sabor da maresia ali no oceano largo.
As emoções pregam-nos partidas e bloqueiam as palavras e os pensamentos e ficamos em branco, rubros por fora, acalorados, a disparar o sangue nas veias ou então numa espécie de catarse narcotizante que asfixia o sentir.
Já não te sinto é isso. Deixei de te sentir à tanto tempo que já não me lembro. Tenho algumas dúvidas que tenhas existido, que não sejas só uma projecção do cérebro, um holograma de imagens e não mais que isso. Tenho duvidas de mim mesmo, da minha capacidade de discernimento à reacção a um simples acto teu de provocação a tentar que eu fique de outra cor que não o branco, ou as palavras se soltem dos cabos onde se encontram enleadas num emaranhado de ausências.
Eu sei que sabes que um dia te disse que o amor para mim era branco, que tem a cor da pureza. Mas nós já perdemos a inocência do amor e das palavras e dos actos. Fomos a perdição um do outros ambos sabemos e já não temos remédio ou mesinha caseira que nos cure ou nos faça ficar de outra maneira que não esta, branca esvoaçante como a roupa a secar no fieiro, ali na Afurada dos tempos antigos.
Somos um branco anónimo desbotado pelo tempo, e nem esta tentativa de retomar as palavras é coerente ou permite que me liberte.
As vezes, sim, sei que deve ser quando durmo, sonho-te e acordo com um sorriso, aos poucos o sonhar volta, quase que juro, algumas vezes sinto o teu calor, o teu corpo, ou é o meu sangue que ferve fulminado por febres e me engana.
As emoções pregam-nos partidas…




S. Paio Antas 2011


Fotografia de barcoantigo em 2005

Sábado, Outubro 29, 2011

hoje sinto-te na calmaria...





Hoje sinto-te na calmaria do vento quieto
Das gotas de água pura que desabou dias atrás
E porque hoje é domingo e me apetece escutar Leo

Fantástico e fabuloso…

Dou-te a mão
E caminhamos pela beira-mar em passos leves
Os pequenos Borralhos correm furtivos a esconderem-se

Levo no pensamento a musica que aqui te oferto desta forma fria

Dou-te a mão
Dou-te a mão e fico com a minha tão vazia…

Falta-me a tua voz a acariciar a memória.

Sábado, Abril 02, 2011

haja o que houver...(repetição...)

Haja o que houver, espero por ti.

Sinto-me cansado. Muito cansado. A espera é longa demasiado longa. Não voltas. Já li todos os livros, escrevi todas as palavras. Agora vou por esta rua da cidade, as mãos nos bolsos, vou abandonado abandonado. Sou um estranho aqui. Não sei se te amo ainda, ou o pensamento que tenho de ti me tem cativo do amor que imagino. Já não sei. Sinto-me terrivelmente cansado. É já noite, e a rua mal iluminada cai em mim, como o negro do luto carregado nas vestes das mulheres no mar da Póvoa. Queria dizer-te. Queria olhar-te. Tocar-te as mãos. Percorrer a tua face sentir a tua pele, e já não sei rigorosamente nada de ti – Não existes por fora da minha cabeça pois não? – Sou eu que te imagino não sou? Olho-te se fecho os olhos. Os teus olhos negros a rirem de mim. Da minha fragilidade.

Haja o que houver vou sempre esperar por ti. Só tu não. Já não esperas. Já não chegas. Já não vens. Já não voltas. Só eu fico aqui, exposto ao tempo a enferrujar. Ás vezes as lágrimas escorrem por dentro, são lágrimas de saudade, mas tu nem sabes o significado, nem o sabor das lágrimas, nem sabes que eu aqui fico sempre à espera das noticias que não chegam. As cartas vêm, devolvidas, perdi a tua direcção, o teu endereço postal.

Há dias fui em tua busca até à foz. Fui em vão. Fui em tua busca até à nossa praia. Fui em vão. As memórias são só minhas agora. "Escrevo uma invenção da memória a ver se coincide com a tua memória minha e te lembras de mim um dia e então regresses à minha memória de hoje em que me sinto angustiado e terrivelmente cansado".

E o tempo agora é um tempo de Inverno que chega. Queria dar-te um abraço hoje, com o sentir à flor da pele, enquanto o tempo, esse, se reúne no céu, a decidir se há-de deixar cair as lágrimas em bátegas de chuva, ou nos ensurdecer os sentidos com o ruído dos trovões a fingir que nos atemoriza. Sou eu que me assusto só com o vazio da tua ausência em mim. A falta que me fazes. Tu sabes minha querida amiga que as pessoas a qualquer momento da vida desiludem, mas no dia seguinte depois de nascer o sol, de os pardais se afadigarem na procura do alimento, voltamos a sermos nós de novo, feridos é certo mas a crescer por dentro.

As cicatrizes ao contrário de golpes feios na pele ficam invisíveis ao olhar menos atento e só alguns nos penetram a alma, alguns olhares, por isso eu, na parte que me toca, dificilmente olho de olhos nos olhos...


Ficam as memórias, guardo sempre as melhores memórias até que elas não passem mesmo disso, só memorias. Não acredito que possamos falhar só nós, a falha é mutua, temos de ser dois para interagir...

E quantas vezes queremos gritar e não sai som, porque morre apertado no peito, e quantas vezes queremos, e...

Às vezes dou por mim a escrever não sei porquê. Entendes-me? Abraço enquanto tento que os barcos se reúnam na Ria...

Domingo, Dezembro 19, 2010

Intermitência via rádio 13-01- 2009

(de uma conversa em canal 16

Sonhas?
sorte a tua
eu não sonho
pelo menos que me lembra
não sonho a dormir
é um mecanismo de defesa contra a saudade
a saudade é uma palavra que anda de braço dado com a ausência...


gosto de me molhar, mas um cobertor não resolvia a situação, ficava muito carregado de água e podia ser perigoso.
Gostas do perigo?
O coração a disparar as pernas a tremerem.
O coração está quente
acho
36.5º
por ai acima passa a estado febril e é uma porra no mar
tenho que andar com o arnês colocado
o arnês é um cordão umbilical que me liga ao barco, espécie de linha de vida, sem vida.



- Bom trabalho para ti hoje. Com muitos satélites nos céus
porque a manhã acordou muito bonita. Gosto de olhar o sol a acordar nestes dias com as nuvens de chuva a competirem umas com as outras.

Há dias vi uma estrela cadente. Deveria de ter pedido um desejo.

Um dia pedi e realizou-se, agora não quero abusar da sorte...

cada vez estou a escrever mais. Imagino que falo com alguém
aqui o som que escuto está no canal 16 em escuta permanente

aceito o beijo mas dispenso a cobertura...
agora vou virar-me para o outro lado...

Sábado, Novembro 20, 2010

Não se ensina o coração



Ando de roda das palavras agora
A tentar rodear o sentido
E nada faz sentido já.
Desistimos
Abandonamos o sonho, a esperança
Ficamos estranhos.
Refugio-me no escuro
Retomo os antigos discos de vinil negro
Viajo por entre as músicas preferidas de à 30 anos
Dou-me conta do tempo, o tempo voa não pára
Só nós paramos o amor. Um abismo. Construímos um muro.
O frio em nós. É Outono, o tempo incerto.
Faz tempo que abandonei as palavras
A arvore, o pequeno jardim, as mesas da esplanada,
O pequeno café ao final da tarde
Onde nos víamos por dentro olhos nos olhos
O muro em pedra antiga a separar da rua também ela perdida no tempo.
Da ultima vez que te olhei
Estava um pardalito assustado no muro à espera
Que fossemos embora para debicar migalhas espalhadas na mesa
Ainda me recordo dele. Por um relâmpago de tempo olhamo-nos
Não teve medo, permaneceu á espera
Só nós partimos.
Não se ensina o coração a amar


Antas Novembro 2010

Sexta-feira, Fevereiro 26, 2010

não sabes...




Tenho um foque redondo onde guardo os sonhos. Claro que tu não sabes o que é um foque nem a forma dos meus sonhos. E eu, velho, estou aqui preso a estas paredes neste lar, espécie de casa onde o sol só entra pela manhã e se despede pelo meio dia…
Conto-te as minhas histórias a ti porque não existes por fora de mim, coabitas comigo nas minhas emoções, porque nós nunca fomos diferentes. Não sentimos de maneiras diferentes. Sentimos é com intensidades diferentes. É isso que nos torna unos.
É isso que nos torna unos ou sós. Demasiado sós em nós. Quis-te sempre, tu é que só me quiseste por um breve momento. Foste uma espécie de travessia no atlântico norte. És gelo branco. Na altura parecias-me o paraíso. O amor. Por isso o amor é branco em mim. Tu eras o amor. Possuías era a cor do gelo. Desfiz o mistério desta vez. Não me querias. Achaste piada ás palavras do velho que tenta não ser velho nas palavras e nos sentires.
Estou aqui arrumado nesta espécie de sótão de memórias.
Se puderes vem visitar-me antes que eu morra de saudades. Se puderes.
Descobri que também se morre de saudades nesta casa.
- Esta casa é enorme!
Esta casa é um depósito de emoções. Espécie de livros diversos que falam baixinho. Uma biblioteca que se arrasta pelos corredores receosa. Precisa do auxílio das cadeiras de rodas, das canadianas, das bengalas. De um braço amigo onde descansar as mãos. Esta biblioteca tem mãos, dei-me conta que tem mãos. Sempre gostei de olhar as mãos. As mãos não mentem. Os olhos sim. Raramente olho nos olhos para também eu não mentir, mas o meu olhar já é turvo e nublado. Já não faz mal. Não me importo. A vista foge aos poucos. Acho mesmo que se vieres um dia, não te vou ver. Só se me falares. Me disseres que és mesmo tu. E eu possa seguir o som da tua voz e então num esforço procurar-te com o olhar. Se vieres vem pela manhã por favor. Na hora do sol. É importante que me tragas o sol. Lá nas latitudes extremas gostava de contemplar o sol a nascer desde a ponte do navio. Gostava de lhe dar as boas vindas enquanto tirava a posição do navio com o sextante. Um brilho sem explicação por palavras. Uma espécie de clamor à vida. Lembrava-me de ti sempre pela manhã. Todas as manhãs. Procurava-te com o olhar…
Se vieres e me perguntares se algum dia te amei, respondo-te que não. Não me deste tempo para te amar. Desejei-te só. Acho que te deste conta do meu desejo. Acho também que foi por isso que partiste de mim e me deixaste a tua marca na memória e as palavras nas minhas cartas a ti. Mas tu tiveste a culpa. Quem te mandou perguntar se eu te desejava. Quem? Porque o fizeste? Nunca te enviei as cartas.

Não me deste tempo para te amar mas o desejo meu por ti foi bom principio, há quem por menos, ou pelo menos, o diga assim, ou ache que ama. Eu fui verdadeiro contigo. Sou é tímido, coisa de marinheiro mesmo, mais habituado a acariciar as ondas e o medo, e a brisa. A sentir a névoa no rosto e as estrelas no olhar. Mundos diferentes minha querida. Mundos diferentes.
Confesso-te uma coisa. Tenho saudades. Tenho saudades acredita. Acho que vou morrer de saudades sem ver o mar. Sentir o cheiro da brisa, a névoa no alvor da manhã, o sussurro das velas, o gingar do navio. Tenho saudades. Queria morrer lá. No mar. Não aqui, dentro destas quatro paredes de cor desmaiada onde o sol só entra pela manhã. Onde o silêncio impera ao longo do dia entrecortado de longe a longe pelos sussurros das memórias. As tais bibliotecas que andam e tem as tais mãos que um dia agarraram o mundo. Acariciaram rostos. Imploraram a Deus. As tuas eram pequeninas. Já não sei bem como eram as tuas mãos. Perdoa-me também a memória. É a memória de um velho sem validade arrumado nesta espécie de sótão dos sentires.

Não tenhas pena de mim. Eu não tenho…

João marinheiro 2007

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